27/05/2010

EDUCAÇÃO AMBIENTAL E AGRICULTURA
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“A palavra sustentável
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para capitalismo verde?”

“Todos agora falam em sustentabilidade. Mas tenho medo dessa palavra usada por multinacionais e até bancos”

O belga e escritor Luc Vankrunkelsven defende o Cerrado na Organização Mundial do Comércio - OMC como consultor e aponta que os desafios para século XXI são nossas relações com as proteínas vegetais e animais. Ele ataca a frase “países com vocação para alimentar o mundo” estuda e faz o histórico da trajetória da soja e os impactos sociais, ambientais e econômicos em vários países. Para Luc Vankrunkelsven até o sistema de produção de soja orgânica em grande extensão não é sustentável. Ele lançou o livro Brasil – Europa em fragmentos? e diz ter ficado contente porque fez um trabalho para adultos que recebeu ilustrações de crianças que ouviram a professora ler o livro e fizeram desenhos de como vêem os problemas e as soluções também. Luc diz que Educação Ambiental na Bélgica está bem incorporada ao ensino das escolas e também na formação de movimentos e instituições. Veja abaixo entrevista concedida ao jornalista Wagner Oliveira do blog Educação Ambiental em Goiás.

EA em Goiás - Por que o Brasil e o Cerrado vão cair em fragmentos?
Luc Vankrunkelsven - Há muitas crises agora. Crise do financiamento, crise ecológica, crise do aquecimento, crise do desmatamento e outras. Para mim desafios para o século XXI são nossas relações com as proteínas vegetais e animais. O desmatamento no Cerrado é duas vezes maior que na Amazônia. Todos falam isso no cenário internacional. O Cerrado vai cair a fragmentos e desaparecer. É um sistema de 65 milhões de anos e não vai voltar. Muitas sementes do Cerrado são especiais e só podem brotar em condições especiais. Na Amazônia se pode replantar. No Cerrado, não! Pode se plantar eucalipto e pinus, mas não é a biodiversidade original do Cerrado. É importante a exposição de fotos do Cerrado, da beleza não só para pessoas daqui, mas também para o mundo inteiro. Eu gosto.


EA em Goiás - Que políticas públicas poderiam ser implementadas para evitar a fragmentação do Cerrado?
Luc Vankrunkelsven - O Cerrado ainda não é patrimônio nacional. Outros biomas já são como Pantanal, Amazônia, Mata Atlântica. Essa será uma conquista. O 11 de setembro (Dia Nacional do Cerrado) é uma data importante, como escrevi no meu livro. Como meus livros, essa data é ferramenta extremamente importante para tentar mudar as mentes no Brasil de que aqui também é um patrimônio nacional.


Imagem de documentários exibidos por Luc Vankrunkelsven na UFG e UCG

EA em Goiás - A soja causou grande impacto no Cerrado preservado. Mas trouxe também a imagem de região próspera. É possível conciliar preservação e sustentabilidade com desenvolvimento econômico?
Luc Vankrunkelsven - Tem um tesouro no Brasil, não só na Amazônia. Um tesouro em produtos e frutos que o Brasil possui. Até 775 produtos de frutos diferentes poderiam ser comercializados para o mercado brasileiro e internacional. Não sou contra exportação e comércio, mas sou contra exportação única de um ou dois produtos como soja e esse grande volume não é bom para o Brasil, não é bom para a Europa, não é bom para a China e outros países.


Foto de João Caetano destaca a beleza e a importância do Cerrado para o mundo no real e no imaginário: a vida humana e a animal

Imagem de documentários exibidos por Luc Vankrunkelsven na UFG e UCG

EA em Goiás - É possível termos agricultura orgânica em larga escala e com preços mais baixos?
Luc Vankrunkelsven - Há fazendeiros no Mato Grosso com 2 ou 3 mil hectares de soja orgânica. Mas esse sistema de grande extensão pode ser orgânico, mas para mim não é sustentável. É também um problema de menos rotação, desmatamento... É mais oportuno promover a agricultura familiar, em escala menor. Não deve ser 20 hectares, depende da região. O problema central do Brasil é a concentração de Terra há cinco séculos. Essa concentração agravou com avanço da soja e agora com a cana-de-açúcar. Ainda mais na mão de alguns da elite. É importante fortalecer a agricultura familiar por exemplo para defender a beleza do Cerrado.


EA em Goiás - Estamos próximos de 7 bilhões de pessoas no planeta. Previsão para 2050 com mais de 9 bilhões. Que agricultura vai alimentar tantas pessoas e agredir menos o meio ambiente?
Luc Vankrunkelsven - Um dos problemas é a produção e a consumação da carne. Não sou vegetariano, mas falo sobre o problema da carne e consumo de proteínas de animais e peixes nos livros. Nos últimos 50 anos a população do mundo dobrou, mas o consumo de carne e peixe quintuplicou. E vai dobrar novamente porque agora a China e a Ásia estão comendo mais carne. É um desastre planetário porque a China tem 20% da população do mundo, mas só 6% da terra arável e 6% da água doce do mundo. E porque os chineses como os europeus ou brasileiros comem muita carne. Temos de pensar sobre essa impossibilidade de globalizar esse consumo de carne e de outras proteínas animais.


EA em Goiás - Como conscientizar e convencer grandes produtores rurais de que é possível produzir localmente?
Luc Vankrunkelsven - Ideologia de grande escala é nós podemos produzir barato e podemos conquistar o mercado internacional. Pode se dizer guerra econômica. Neste livro escrevi um artigo sobre soja e guerra e o ex ministro da agricultura Roberto Rodrigues fala em dez linhas no meu livro e usa 9 vezes a palavra guerra. Guerra, guerra, guerra. Terceira Guerra Mundial. Devemos conquistar essa guerra. O segundo livro Soja Diferente é sobre soberania alimentar. São exemplos de criatividade, agriculturas no Brasil e na Europa, além da soja. O último artigo é sobre soberania alimentar. Nós temos a vocação de alimentar o mundo? Nós americanos, brasileiros temos muita água, devemos alimentar o mundo? Eu disse não! Cada país tem de decidir como vamos organizar a comida e a agricultura. Não é o Brasil que tem de alimentar o mundo.


EA em Goiás - Picolé, sorvete, geléia de frutos do Cerrado são exemplos de alternativas que mostram a importância de preservação do Cerrado para a geração de renda. Mas o potencial dos frutos do Cerrado é suficiente para enfrentar o poder das monoculturas de exportação?
Luc Vankrunkelsven - Não é o único caminho, mas é um elemento importante. O veneno primeiramente é na cabeça e depois na terra. É muito difícil falar sobre alternativas, sobre esses picolés. Mas acho que é possível demonstrar outro caminho. O problema agora não é só a soja mas, também, a cana-de-açúcar vai ser usada para muitas aplicações e não só para etanol, plásticos, biologia sintética, para muitas aplicações. Então será difícil defender outros caminhos como desses frutos.

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EA em Goiás - Comente por favor a frase: "Na Europa tudo é importado. É impossível cultivar".
Luc Vankrunkelsven - Expliquei em meu livro a história da ração animal. É uma história da interdependência. Comecei no século XIX, mas a data mais importante é 1962 quando ocorreu um convênio da OMC entre América e Europa. Nós, europeus, pudemos defender nossas fronteiras para estabelelecer nossa agricultura na Europa, mas com uma exceção: devíamos aceitar que soja ou milho entrassem sem alfândega. Com essa decisão política entraram toneladas de soja a cada ano até chegar a 39 milhões de toneladas por ano. Dessas, 20 milhões são do Brasil. Nos anos 60 e 70 eram dos Estados Unidos, mas depois começou no Brasil a Revolução Verde e o carro chefe era a soja. Nos últimos 15 anos a soja é mais do Brasil do que dos Estados Unidos. Mas é possível plantar soja, por exemplo, na Itália. Há 20 anos havia produção de soja e era a maior produção do mundo por hectare. Mas é uma soja mais cara do que a muito barata do Brasil, importada sem alfândega na Europa. E os problemas colaterais, sociais e de ecologia do Brasil, de Cerrado, não é deste preço. Então a produção de soja e de outras proteínas pararam na Europa. Só 1% da nossa terra arável na Europa é hoje utilizada para produzir proteínas. Todo o restante é importado. Frangos, suínos, carne bovina comem soja do outro lado do Oceano Atlântico. Mostro isso no meu livro Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano.


Ilustrações da capa e do interior do livro são desenhos de crianças de comunidades carentes feitos após ouvirem a leitura do livro

EA em Goiás - De que forma a educação ambiental pode contribuir diante da transformação do bioma Cerrado para a expansão da agricultura?
Luc Vankrunkelsven - A formação e a educação são importantes. Estou agora muito feliz com esse livro Brasil - Europa em fragmentos? É um livro para adultos, mas foram crianças que fizeram centenas de desenhos para ilustrar e alguns estão no livro. Uma professora de universidade de Curitiba falou em extensão para crianças de comunidade carente sobre o livro e depois eles fizeram os desenhos. É um espelho para os adultos de como as crianças não só veem esses problemas, mas também as soluções. Uma esperança está na nova juventude que pode tentar mudar um pouco o rumo. Não só as crianças mas, também, os adultos precisam ter formação. Pensar sobre a beleza do Cerrado.


EA em Goiás - Qual experiência de educação ambiental na Europa o senhor citaria?
Luc Vankrunkelsven - São 26 países da comunidade europeia e educação e cultura é sempre matéria dos governos locais. Não posso falar de forma geral porque meu governo é da Flandria. Na Bélgica está bem incorporado no ensino das escolas e também na formação de movimentos e instituições.


Cena de mais um documentário exibido: impactos sociais, econômicos e ambientais

EA em Goiás - De que forma o senhor está defendendo hoje o Cerrado na Europa e na OMC?
Luc Vankrunkelsven - Não há critérios ambientais na OMC (Organização Mundial do Comércio). Este é um dos problemas. Também não tem condições de trabalho na OMC. Mas na Europa eu convidei agora o fotógrafo João Caetano e o Fórum Goiano de Defesa do Cerrado para exposição com essas fotos e também para debate no parlamento europeu.


Soja do Brasil principalmente para alimentação animal na Europa

EA em Goiás - Durante palestra na PUC-Goiás o professor de administração Ricardo Resende comentou: “É preciso desenvolver sistemas sustentáveis e capazes de combater os esquemas atuais. Tem de saber quem tem vocação para plantar, para produzir eletrodomésticos. Combater modelos e sistemas insustentáveis. Ter modelos sustentáveis para contrapor.” Esses modelos sustentáveis já surgiram, vão surgir ou só temos o diagnóstico ainda?
Luc Vankrunkelsven - Eu não acredito na vocação de alimentar o mundo. Os americanos têm essa ideia do século XIX e o Brasil tem agora a ideia de alimentar o mundo, não da soberania alimentar. Meu segundo livro Soja Diferente diz que cada povo, cada país, tem de discutir como organizar a agricultura e a comida. E não como mostrei em um filme sobre o dumping com frango que chega à África e destrói a cultura e economia. Não gosto de a Europa acreditar que tem vocação para exportar leite para a Ásia porque só é possível com a soja importada do Brasil. Produz 10 mil litros de leite, mas só é possível com ração forte da soja. Então eles vão usar neste modelo a palavra sustentável. Mas para mim só vão usar a palavra sustentável para um capitalismo verde. Todos agora falam em sustentabilidade. Mas tenho medo dessa palavra usada por multinacionais e até bancos. Vamos discutir o que é sustentabilidade. Sou pela sustentabilidade. Eu discuto na Bélgica a industrialização animal com grandes sindicatos de agricultores e eles também usam essa palavra sustentabilidade. Dizem que vão converter esse fluxo de soja do Brasil para a Europa de forma sustentável. E para mim nunca poderá ser sustentável. A produção pode ser sustentável, mas esse sistema de navios que cruzam o Oceano Atlântico na calada da noite não pode ser sustentável.

Ilustração de livro de Luc com desenhos de crianças: percepção infantil e educação ambiental



Um mundo sem árvores, só prédios, só concreto.

Clique para ler ampliada

Página do livro de Luc com dez razões para dar seu apoio e participar

A entrevista pode ser reproduzida citando a fonte: www.wagneroliveiragoias.blogspot.com/
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