27/03/2012

ENTREVISTA MICHÈLE SATO

“O educador ambiental não
consegue entender a pluralidade”

“Temos de sair da egologia para a ecologia, algo maior”

Com um sorriso nos lábios e carisma que atrai educadores ambientais das mais diversas áreas. Mas também provocativa em sua palestra apresentando imagens de conflitos históricos brasileiros e mundiais como o de 1989 quando o estudante enfrentou sozinho tanques de guerra durante ditadura na China e depois apareceu morto, a polêmica sobre a transposição do Rio São Francisco, o uso de transgênicos, a construção da Usina de Belo Monte e sobre o novo Código Florestal. E mostra ainda em fotos históricas o ano de 1968 com os protestos estudantis sufocados por governos autoritários, apartheid, Woodstock, tropicália para em seguida falar de educação ambiental. “No mundo da educação ambiental é muito comum a gente falar em harmonia. Talvez porque o mundo seja tão caótico que a gente precisa buscar inseri-la. Mas nesses anos... eu aprendi que é bom a gente evocar os conflitos. É bom a gente falar de tristeza. No momento de maior tristeza da vida de vocês, lá no fundo do poço é que vem a energia. E essa energia é que a gente tem de sugar e aprender”. Michèle Sato é paulista, com licenciatura em biologia, mestrado em filosofia e morou na Inglaterra, no Canadá e na África. É professora da Universidade Federal do Mato Grosso – UFMT e trabalha principalmente com os temas fenomenologia, ecologia, sustentabilidade, arte e mitologia. Nesta entrevista concedida durante o II Congresso Brasileiro de Educação Ambiental realizado em João Pessoa – Paraíba, Michèle Sato não quis apresentar o que chama de “receitas” para educadores ambientais e explica por que. Tece também críticas a “ótica do capital”: “Não podemos viver sob a ótica do capital porque ele destrói os territórios e promove as desterritorializações. O capital, a gana, o mercado, o dinheiro, a competição, o individualismo é que destruiu tudo. Essa ótica tem de ser abandonada”. Abaixo, entrevista gentilmente concedida a Educação Ambiental em Goiás

Wagner Oliveira - Por que prefere o conceito de sociedades sustentáveis, trabalhado pela senhora desde sua tese de doutorado, ao conceito de desenvolvimento sustentável?
Michèle Sato - Frequentemente recomendo que as pessoas leiam não só minha tese de doutorado, mas tenho também inúmeras publicações que debato mais fecundamente esse tema. O ponto básico dessa questão é que sou contra a noção desenvolvimentista que se apregoa no mundo inteiro, não só no Brasil, e acho que esse desenvolvimento está sempre ligado a um consumo exagerado, a uma qualidade de vida incompatível. 20% da minoria rica do mundo consomem 80% dos recursos e isso é a noção desenvolvimentista impregnada. É exatamente essa noção que tenho combatido e tenho apregoado que é necessário sociedades sustentáveis. Mais do que desenvolvimento econômico, a sociedade e a ecologia em primeiro lugar.


“As pessoas estão invisibilizadas. E essa invisibilidade das pessoas faz com que se tornem excluídas”

Wagner Oliveira – A senhora disse na palestra que o maior dano do zoneamento ambiental é porque ele afeta as bacias hidrográficas?
Michèle Sato - Exemplo típico é quando você vê na imagem do satélite o Estado do Mato Grosso - a área mais conservada é a terra indígena do Xingu. Todas as bacias, todas as nascentes dos rios estão fora da área do Xingu. Autorizando o agronegócio avançar polui-se a cabeceira dos rios. Esse rio sobe para o Xingu, sobe até a Amazônia, vai para o mundo, acaba o planeta. A bacia hidrográfica é um comprometimento no Estado do Mato Grosso.


“O território ou a falta do território constrói as identidades. Educação ambiental tem de trabalhar essas especificidades”

Wagner Oliveira - Quando o ambiente é desmatado 99% dos que sofrem são os pobres?
Michèle Sato - Se compararmos um terremoto no México com um terremoto no Japão há muito mais mortes no México do que no Japão. Porque o Japão tem muito mais infra-estrutura, logística, dinheiro, mais arquitetos para construir suas casas e as populações pobres não têm e são as que mais padecem em um impacto ambiental. No maior evento de radiação do mundo, que foi em Goiânia, os maiores afetados foram os trabalhadores.

Wagner Oliveira - Não existe exclusão social? As pessoas estão incluídas?
Michèle Sato - As pessoas estão invisibilizadas. E essa invisibilidade das pessoas faz com que se tornem excluídas. Mas elas estão totalmente incluídas, elas existem. As pessoas é que não querem vê-las.

Wagner Oliveira - A senhora fez trabalho na comunidade quilombola de Mata Cavalo. Temos também quilombolas em Goiás no município de Cavalcante. De que forma as comunidades quilombolas podem melhorar suas condições sociais e ambientais?
Michèle Sato - Existem várias alternativas. Essa não é muito a minha praia. Não trabalho com economia solidária, nem com empreendedorismo, nem com incubar encubar deira. Trabalho educação ambiental, processo formativo, processo de investigação da crença dos sujeitos, da forma de vida, da expressão e da espiritualidade deles. Mas existem inúmeras iniciativas que você pode recorrer à literatura que trabalha a contribuição com comunidades mais carentes.

Wagner Oliveira - Como a senhora vê a luta pelos atingidos por barragens e a educação ambiental? Um paralelo.
Michèle Sato - Um paralelo é exatamente tentar revelar que o território ou a falta do território constrói as identidades. Educação ambiental tem de trabalhar essas especificidades. Não adianta eu falar - porque ta na moda falar sobre educação ambiental e consumo sustentável - para uma comunidade que está morrendo de fome que não é para consumir. Essas especificidades são importantes. Como há uma orientação sempre geral de que território e identidades estão imbricados, também considerar que territórios e identidades estão imbricados dentro deste contexto da formação, da identidade e da educação ambiental.

"Tem de fazer educação ambiental conforme a identidade e o território"

Wagner Oliveira - Na sua palestra a senhora falou sobre barragens e citou Belo Monte. Como a senhora se posiciona em relação a construção de Belo Monte, grandes usinas hidrelétricas e preservação do meio ambiente?
Michèle Sato – Em um país da biomassa e da biodiversidade não cabe mais usina hidrelétrica.

Wagner Oliveira – A área do Estado do Mato Grosso é formada por 65% de Amazônia e, em segundo lugar, por Cerrado. Ao mesmo tempo o Estado é recordista em desmatamento. A educação ambiental está funcionando no Mato Grosso?
Michèle Sato - Educação ambiental não resolve problema. Nenhuma área do conhecimento resolve problema. A matemática não resolve problema. Geografia não resolve problema. Biologia não resolve problema e educação ambiental não resolve problema. O que você está entendendo como educação ambiental? Se você entende que educação ambiental é uma varinha mágica que faz “plin” e funciona então podemos resolver problema. Eu entendo que educação ambiental tem um campo epistemológico próprio. Ela é uma área do conhecimento próprio com metodologias, preconceitos e, portanto, não resolve problemas. Isso é uma visão utilitarista que a modernidade colocou de que vamos resolver algum problema. Ela talvez entenda o problema e, a partir dessa compreensão, magnifique determinadas soluções mas para irmos lá combatê-las. Mas não podemos atribuir isso à educação ambiental porque onde está o restante da humanidade que não está fazendo nada? Só a educação ambiental é que vai resolver o problema? Não! O governo tem de fazer, a matemática, todas as áreas do saber precisam fazer.

Wagner Oliveira - A senhora citou Antônio João com a frase do poema de cordel “O problema do Nordeste não é a seca. O problema do Nordeste é a cerca”. E a senhora complementa: “O problema do Brasil é a cerca”. Por quê?
Michèle Sato - É o abismo que segrega as pessoas. É a diferença. O Brasil está no 84º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH 2011). Mas em um índice que mostra desigualdade social (relatório do Programa das Nações unidas para o Desenvolvimento – PNUD sobre América Latina e Caribe - 2010) ele está em terceiro lugar. O que é essa desigualdade social? É a cerca. É a fronteira que separa rico de pobre. O abismo cada vez maior.

Wagner Oliveira - Políticas públicas só são possíveis no Brasil com políticas afirmativas? Como devem ser essas políticas afirmativas?
Michèle Sato - Da forma como estão sendo construídas, especificamente com cada movimento social onde cada qual, cada segmento tem o seu olhar, sua reivindicação e sua história. O que não pode acontecer é o privilégio de uma política pública em detrimento de uma política global. Essas coisas são tecidas simultaneamente. Não se pode defender só o negro e esquecer o índio, a mulher, o portadores de deficiência. Tem de ser pautado de forma global.

“Política econômica sem entrelaçamento ambiental está fadada ao fracasso”

Wagner Oliveira - Para os indígenas a espiritualidade depende da natureza, o espírito bebe água. É importante considerar a espiritualidade na construção de políticas públicas?
Michèle Sato - Também. Não só. Políticas públicas quando são construídas não levam em consideração a espiritualidade. E afirmo que é preciso colocar sim a questão espiritual no meio da política.

Wagner Oliveira - A senhora se emocionou ao citar o caso do menor de 15 anos que matou outro menor de 17 anos com 100 facadas no Mato Grosso. Como a senhora vê meio ambiente e violência?
Michèle Sato - A grande violência do Estado do Mato Grosso, por exemplo a disputa por terra, é uma questão ambiental e social. Quem é que promove a queimada? Pecuaristas e a agricultura mecanizada de grande porte. É uma questão social, de exclusão social, de disparidade, de aumento do fosso entre ricos e pobres. De miséria absoluta, de riqueza para a minoria dentro desse contexto ambiental de provocação, de queimada. Essa é a relação que não podemos esquecer. As agressões humanas têm íntima relação com as agressões ambientais.

“Somos uma espécie em extinção. Ninguém é contra veladamente a questão ambiental. Mas não vai à rua. Não é causa”

Wagner Oliveira - Presidente do Congresso Nacional de Educação Ambiental Miguel Bordas perguntou na abertura do evento se junto com o mercado de capitais há um desenvolvimento de pessoas. Está ocorrendo esse desenvolvimento de pessoas?
Michèle Sato - Precisamos definir o que é desenvolvimento. O que significa desenvolvimento? Matar outra pessoa com 100 facadas é um desenvolvimento humano? Acho que precisamos definir o que é desenvolvimento para depois tentar responder essa pergunta. As pessoas estão melhores? Sim, por um lado. Mas há agressões por outro. Na vida há partes boas e ruins. Você precisa contextualizar em um contexto não só espacial, mas também temporal. Antigamente cantávamos “o teu cabelo não nega mulata porque és mulata na cor”. Isso é politicamente incorreto hoje. Então é preciso ser revista a temporalidade. O que é um desenvolvimento humano? Acho que não precisamos de desenvolvimento humano. Precisamos é de envolvimento humano. Essa é a crítica que faço.

Wagner Oliveira - A senhora diz que lança uma outra forma de olhar. De que forma o educador ambiental deve olhar a conjuntura econômica e ambiental?
Michèle Sato - É uma pergunta extremamente abrangente que não vamos conseguir responder em uma entrevista. Mas o que é preciso entender é que toda política econômica que não traz o entrelaçamento ambiental está fadada ao fracasso. Você não consegue mais pensar hoje em sistema econômico se não pensar no ambiental.

“Não podemos viver sob a ótica do capital porque ele destrói os territórios e promove as desterritorializações

Wagner Oliveira - A senhora diz que quebra de tradição significa que podemos mudar paradigmas. Em relação ao meio ambiente é possível, a curto ou médio prazo, mudar paradigmas do Mato Grosso?
Michèle Sato - Tomara que sim. Inclusive o abandono dessa palavra paradigma. Ninguém aguenta mais modelos, leis, sistemas fechados para serem seguidos. Tomara que a gente consiga ser livre, autônomo, suficiente para poder traçar trajetórias de vários caminhos sem precisar usar essa estruturazinha básica fechada.

Wagner Oliveira - A participação do educador ambiental não pode ser só em eventos de educação ambiental dentro de auditórios. A proposta deve ser debatida e incorporada ao bojo?
Michèle Sato – A todo o momento. Desde a educação familiar. Educação na escola, fora da escola, com amigos. O que digo é que não pode ser um parêntesis na vida do sujeito. Os fóruns, os eventos não podem ser esses parêntesis. As pessoas têm de incorporar mais a luta no seu cotidiano. Não ficar só pontualmente nesses modelos.

Wagner Oliveira - A senhora diz que no Mato Grosso se consegue reunir somente meia dúzia numa praça por questões ambientais. Por que não se consegue reunir mais pessoas no Mato Grosso por questões ambientais?
Michèle Sato - Não é só no Mato Grosso. Eu duvido que em Goiás você consiga reunir uma multidão de ecologistas e educadores ambientais na rua para protestar contra a degradação do meio ambiente. Duvido que se faça isso. Ninguém consegue.

Wagner Oliveira - Por que não se consegue?
Michèle Sato - Somos uma espécie em extinção. Ninguém é contra veladamente a questão ambiental. Mas não vai à rua. Não é causa. As pessoas vão à rua por causa própria. Sindicatos vão à rua por salário. Lutas diretas daquilo que é perceptível no cotidiano deles. O planeta está muito longe.

“Ninguém aguenta mais modelos, leis, sistemas fechados para serem seguidos”

Wagner Oliveira - Em tempos de Big Brother, globalização, internet e redes sociais tais como Facebook como ficam as identidades regionais?
Michèle Sato - Varridas pelo sistema perverso da globalização que é realmente macabra e cada vez mais a gente precisa tentar fazer emergir as identidades regionais. Em contato com a globalização, mas evidenciar mais o local, o chão, as pessoas, o Nordeste, a Paraíba, o bairro, o quilombo.

Wagner Oliveira - O educador ambiental fala muito em diversidade biológica mas não consegue entender a pluralidade?
Michèle Sato - É. Ele entende muito da diversidade biológica mas não consegue falar da diversidade cultural. E não é só o educador ambiental. As pessoas de uma forma geral não conseguem entender o diferente. O que pensa diferente de você é excluído ou evitado. Poucas pessoas se aventuram nessa convivência, nesse enfrentamento. Obviamente tem de discernir que o diferente não é o opressor. O opressor tem de ser combatido. O diferente, não. Tem de ser exercitado na sua convivência. Conheço quem fala “Eu não tenho nada contra homossexual desde que não chegue perto de mim.” Então não está sendo legitimamente correto. É preciso saber conviver com eles.


Wagner Oliveira - Educação ambiental só na teoria não funciona. Como deve ser a educação ambiental na prática?
Michèle Sato - De diversas formas, experiências vividas. Não há uma regra, não há uma receita. Cada universo vai agir e atuar e descobrir a sua própria trajetória.

Wagner Oliveira - Como deve ser a formação do educador ambiental?
Michèle Sato - Não tenho uma receita. Se você não considerar o território, o contexto, o texto, as pessoas... eu posso dar o modelinho básico que trabalho no Mato Grosso. Mas isso não vai servir para a realidade do Amazônas, São Paulo, Santa Catarina, China ou para a Europa. Se tiver uma regra única, tem é de fazer educação ambiental conforme a identidade e o território daquele local. Considerar a realidade do local.


“Educação ambiental para mim é meu projeto de vida. Não sou educadora ambiental na universidade. Sou educadora ambiental em todo momento”

2 comentários:

  1. Grande entrevista, parabéns pela cobertura do evento. Nós que não pudemos ir ficamos agradecidos,

    att.

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  2. olá wagner
    MUITO obrigada pela entrevista, fotos e mimos que acalentam esta alma! gostei muito! já postei no meu ppo blog!

    foi legal te rever em salvador tb, muita magia por lá né? vi as fotos e coisas mils - BELO BLOG, PARABÉNS!

    um abração e carinhos
    *

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